Refletindo sobre Amused To Death do Roger Waters
Amused To Death é um bom disco, sim, mas que não conseguiu ser uma boa experiência para mim.
O disco entrega algumas músicas muito boas, assim como as tão famosas letras afiadas de Roger. Só que falta aqui espaço para deixar a música respirar e ser o veículo transmissor da mensagem.
Roger é o próprio veículo de transmissão. Ele tem mensagens muito claras aqui e faz questão de transmiti-las de forma direta e repetitiva. Quando olhamos para os discos do Pink Floyd, as letras de Roger funcionam muito bem justamente porque são acompanhadas por uma construção musical que humaniza a mensagem e nos convida a refletir e entender as coisas por nós mesmos.
Temos, por exemplo, músicas como Any Colour You Like, que sequer possui letra, ou momentos de pausa dentro de suítes maiores, como Echoes, Atom Heart Mother e Dogs, que não precisam de palavras para transmitir aquilo que pretendem. Esses momentos servem como pontes entre ideias ou mesmo como pausas para reflexão. Dão ao ouvinte tempo para assimilar o que acabou de ouvir e, ao mesmo tempo, se preparar para o que ainda vem.
Em Amused to Death, temos 70 minutos de um disco que quase nunca para. Mesmo nos ótimos solos de guitarra de Jeff Beck, sempre existe algo mais acontecendo ao fundo. Seja Roger falando, sejam efeitos de TV ou qualquer outra coisa. O disco, apesar de ser muito bom musicalmente, acaba se parecendo mais com uma grande palestra do que com uma experiência que convida o ouvinte a participar. Seu papel é, e somente é, o de ouvir.
Chega a ser irônico que uma das principais críticas que Roger faz nesse disco seja justamente direcionada à televisão, que, segundo ele, utiliza diversas ferramentas para banalizar assuntos complexos e transformá-los em espetáculos fáceis de consumir. Porém, o próprio Roger trata o ouvinte como alguém que precisa receber suas reflexões de forma já totalmente pronta. Ele se esforça para garantir que sua mensagem seja clara, direta e simples, deixando pouco espaço para interpretação ou reflexão. Parece esperar apenas que você concorde com ele.
Roger, ao sair do Pink Floyd nos anos 80, parecia ter se perdido na cegueira da convivência e já não enxergava a genialidade de seus colegas de banda e a capacidade que eles tinham de transformar suas letras em músicas e experiências marcantes.
Esse disco, para mim, acaba sendo um elogio acidental justamente a essa genialidade. É uma prova clara de que o Pink Floyd funcionava pela troca entre quatro gênios. Roger sozinho acabou se tornando um maestro que enxerga a música como uma ferramenta a ser executada perfeitamente de acordo com seu desenho, e não como um ser vivo, em constante movimento e capaz de encontrar seus próprios caminhos.
Como comecei o texto dizendo, este é definitivamente um bom disco. Mas é um disco que, em vários momentos, poderia facilmente ser uma palestra.