The Dark Side of the Moon é uma obra-prima — e sim, eu só descobri isso agora.

Não é como se eu não soubesse da existência do álbum. Eu sabia e o escutei, em partes, em alguns momentos da vida. Mas nunca “clicou” para mim. Depois de uma ou outra música, achava estranho e procurava algo diferente.

Nos últimos meses, porém, comecei a mudar a forma como ouvia música pelo simples fato de que não me sentia mais realizado no processo. A música tinha perdido totalmente o valor da arte e passado a ser apenas o som de fundo das minhas atividades do dia a dia e um monte de estatisticas ao fim de cada mês. Agrega-se a isso, também, o fato de que passei, de forma geral, a me incomodar em pagar por (várias)assinaturas e não ser dono de nada.

Pois bem, chegou a um ponto em que, por impulso, comprei uma fita K7, um CD e um tocador para cada. Não sabia bem o que sairia disso, mas quando tudo chegou e pude ouvir minha fita pela primeira vez (o álbum, inclusive, é o Fuyu Kukan, de que falei em outro post), fui levado a uma viagem que nem sabia ser possível embarcar.

De lá para cá foram muitos K7s e CDs (e alguns vinis), até chegar ao Pink Floyd novamente. The Wall, Wish You Were Here, Ummagumma, Pompeii, Animals… Tenho muita coisa para falar sobre cada um deles, mas o foco hoje é The Dark Side of the Moon, o mais recente que resolvi comprar e me aventurar.

O Lado A desse disco é uma fascinante viagem ao nosso interior como indivíduos. Speak to Me e Breathe começam o álbum como um convite a desacelerar (o que é praticamente proibido no mundo de hoje).

Breathe, breathe in the air
Don’t be afraid to care

São só duas linhas simples, mas que carregam um peso brutal. Em uma sociedade na qual a insensibilidade é tratada como “força”, se importar é um ato de revolta e, também, o único caminho para estar vivo de verdade.

On the Run é estranha e causa ansiedade. Parece que, do nada, tudo se tornou urgente. Parece que a gente precisa correr, senão vai ficar para trás na corrida. Que corrida? Não sei (alguém será que sabe? kkk).

Se em On the Run estamos todos correndo sem saber o motivo, Time faz a gente acordar — com despertadores de fato tocando no começo. A gente não precisa correr, mas também não deve parar e esperar algo. A vida é finita, e devemos aproveitar ela da melhor forma. Sem urgência, sem medo. Não é uma corrida, é um livro aberto e pronto para ser preenchido de aventuras.

The Great Gig in the Sky é sobre aceitar a finitude dessa nossa vida, mas, novamente, sem pânico. É o ciclo natural das coisas. Você nem precisa pensar muito sobre isso; é só seguir naturalmente.

Essa música é quem encerra o lado A, e faz isso de forma maravilhosa. É relaxante e bonito de apreciar os vocais e arranjos do Richard Wright.

Agora se o Lado A pegou a gente pela mão para gente poder refletir sobre nós mesmos, no Lado B é hora de olhar para fora.

Money já começa com as caixas registradoras barulhentas. Não há tempo para toda essa reflexão e nem para contemplar sua existência. O capitalismo demanda o seu sacrifício. Você é parte de uma engrenagem e seu valor é medido pelo que consegue entregar nesse processo.

Essa música é maravilhosa. É uma das maiores e melhores críticas ao capitalismo e ao consumismo que já vi. Ironicamente, essa é a música do disco que mais escuto repetidamente. A maior crítica ao consumismo, é feita de uma forma tão gostosa de se ouvir, que faz ter vontade de consumir ela mais e mais.

Us and Them carrega o desdobramento sociopolítico. O “nós contra eles”, as guerras travadas por velhos no poder enquanto os jovens morrem no chão — a empatia humana esmagada pelas estruturas sociais.

Vale lembrar que esse é um disco de 1973, não foi lançado ontem. Mas cada assunto tocado aqui, ainda é um problema atual nosso. Ano após anos parece que em tudo, somos cada vez mais rivais uns dos outros. A ideia do “nós contra eles” foi até otimizada por e para as redes sociais.

Mas voltando ao disco. Caminhamos para a parte final do álbum com, primeiro, any colour you like e falsa ideia de escolha. Você é 100% livre para escolher. As opções só não vão existir.

Depois Brain Damage e Eclipse nos monstram as consequências de ser usado por um sistema tão surreal. A perda da sanidade e a loucura de tentar manter a individualidade em um mundo doentio.

Ser você mesmo, se importar, sentir… Tudo isso é visto como fraqueza. Você passa a ser o “estranho”, pois o sistema demanda apatia e servidão.

É um disco de uma genialidade absurda. Não é uma tarefa fácil conseguir, com tamanha maestria, balancear a exposição da fragilidade e beleza do indivíduo com a exibição da podridão e opressão do sistema. Não tem muito mais o que eu possa falar, então deixo apenas o encerramento de Eclipse, que dá fim a esse álbum com as melhores palavras possíveis:

And everything under the Sun is in tune
But the Sun is eclipsed by the Moon