Celeste e o processo de escalar minha própria montanha
Eu terminei Celeste. O jogo registrou meu tempo em pouco mais de oito horas. Mas esse foi apenas o tempo em que segurei o controle. Na realidade, completar esse jogo foi uma jornada de anos. Não porque eu não conseguia avançar por questões relacionadas ao gameplay, mas porque precisei, aos poucos, encontrar os caminhos da minha própria montanha.
Madeline é uma personagem fictícia, claro. Mas sua jornada de autodescoberta e aceitação, seus medos e suas dores… são bem reais. E, eu diria, infelizmente, reais até demais. É fácil demais se identificar com eles.
Cada capítulo do jogo representa mais um passo da Madeline. E, sem perceber, eu acabei me conectando a essa jornada de um jeito curioso: só conseguia avançar no jogo quando eu mesmo havia avançado um pouco na minha própria vida.
Sem metas ou qualquer tipo de obrigação, fui jogando aos poucos, com pausas que às vezes duravam meses. Não estava nem aí se ia zerar ou não; o importante era jogar quando sentia que era isso que meu coração queria. Talvez por isso não tenha existido um único momento em que essa jornada não reverberasse em mim.
Celeste é um jogo difícil em termos de gameplay. Você vai errar, vai fracassar em pulos, perder o tempo de algum movimento… Não uma ou duas vezes, mas centenas delas. E, na real, tá tudo bem.
Errar não é apenas humano; é parte do processo de crescer. Ainda assim, vivemos em uma sociedade que transforma qualquer tropeço em motivo de vergonha. Talvez crescer também signifique parar de perseguir uma ideia de perfeição e deixar de se esconder da própria montanha — nossos medos, inseguranças e imperfeições. Só assim conseguimos nos aceitar por inteiro.
É justamente por isso que um dos aspectos mais brilhantes de Celeste está na forma como gameplay e narrativa caminham juntos. O jogo não apenas fala sobre enfrentar desafios; ele fala sobre fazer as pazes consigo mesmo. Cada queda, cada tentativa e cada pequeno avanço reforçam essa ideia. Não existe “game over”, não há limite de vidas nem a obrigação de coletar tudo pelo caminho. Se você errar um salto, tudo bem. Você reaparece quase instantaneamente e pode tentar de novo.
No fim, Celeste não ensina que um dia você vai deixar de sentir medo ou de carregar suas inseguranças. Ele ensina que é possível continuar caminhando sem odiar quem você é. A montanha continua difícil, mas, quando você deixa de lutar contra si mesmo, finalmente consegue enxergar o horizonte.
Quando os créditos chegaram, eu estava feliz pela querida Madeline, mas também muito orgulhoso de tudo o que avancei na minha própria montanha. No fim, aquelas oito horas nunca foram sobre terminar Celeste. Foram sobre me tornar alguém capaz de chegar até o fim.